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Gritos chapa branca!

Senador boliviano causa "revolta" em Mostra de Cinema

Gritos de 'fora imperialistas' marcaram a presença de Roger Pinto Molina 
na exibição do filme 'Um Minuto de Silêncio'

Dado Galvão, grava com o senador Roger Pinto, em Brasília (agosto, 2013) para o documentário Missão Bolívia em construção. Foto: Arlen Cezar.


A exibição do filme 'Um Minuto de Silêncio', do italiano Ferdinando Vicentini Orgnani, na noite de sábado (19), dentro da programação da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, provocou constrangimento diplomático ao senador boliviano Roger Pinto Molina, que está asilado em Brasília desde 25 de agosto.

Convidado da produção do filme para prestigiar a estreia, Molina foi hostilizado por parte da plateia que tomou metade da sala do Espaço Itaú Augusta 1. Ao final da sessão, quando lhe foi dada a palavra, vários presentes não o deixaram falar e começaram a gritar “fora imperialistas”, entre outras palavras de ordem. Uma das mais exaltadas, uma mulher, afirmava que não concebia o fato de a Mostra ter convidado o senador. “Isso significa apoiar o asilo dele”, disse.


Não adiantou o diretor dizer que ele não era convidado do evento, mas da produção, nem outra pessoa da plateia afirmar que ele recebeu asilo oficial do governo brasileiro, pois a espectadora estava revoltada. Na sexta-feira (18), o assessor do planalto, Marco Aurélio Garcia, descartou a possibilidade de devolver Molina para o governo boliviano. 

Diante da impossibilidade de falar, a coordenadora do debate insistia para que as pessoas se acalmassem e tentasse ouvir o senador e o cineasta e, em seguida, abrir um debate. Mas os que protestavam não cederam. Seguiram insultando o senador e o diretor, para, em seguida, deixarem a sala. Um deles provocou: “Deixem os leitores da Veja (revista Veja) debaterem, vamos embora”. 

As duas únicas intervenções ponderadas partiram de dois homens que questionaram o cineasta por dar uma versão unilateral do cenário político boliviano atual. O primeiro deles disse que gostaria de ver uma contrapartida, mais pessoas pró-Morales dando depoimento. Ele só se esqueceu que o vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, foi o encarregado, no filme, da visão governamental. O segundo, que também acusou a citada revista, disse que o filme lhe pareceu sensacionalista ao acusar Morales de usar o governo apenas para beneficiar os "cocaleiros", de cuja federação nacional ele é o presidente. Depois, ponderou; "Se isso for verdade, parabéns, eu também estou frustrado”. 

Ferdinando Vicentini Orgnani se justificou dizendo que também se encantou com Evo Morales no princípio do governo, mas que esteve por cinco anos na Bolívia para filmar e acompanhou a reviravolta que ele provocou no país. O filme mostra a revolta dos indígenas com a destruição dp Parque Nacional Tipnis a fim de servir de terra para o plantio de coca que, para além do uso interno do povo boliviano, se torna droga industrializada. 

Ao final do debate, quando restavam pouco mais de 20 pessoas na sala, o senador Roger Pinto Molina retomou a palavra para pedir desculpas pelo ocorrido, disse que não conhecia o filme, que é evangélico e não pretende ficar no Brasil, mas está asilado assim como outros 700 bolivianos, sem contar os 100 opositores presos na Bolivia. 

O filme 


Um Minuto de Silêncio aborda a situação da Bolívia nos últimos cinco anos, durante o governo de Evo Morales, o primeiro presidente indígena eleito após a queda do presidente Sánchez de Lozada, que renunciou diante da pressão dos índios. O cineasta esteve diversas vezes no país e narra a mudança que sentiu no governo. “Entre junho de 2008 e dezembro de 2011, percebi uma transformação gradual: no começo havia grande entusiasmo em relação à revolução que ajudou a eleger o presidente indígena, mas hoje há sinais de que a Bolívia está caminhando para um regime que usará de todos os meios, lícitos e ilícitos, para manter-se no poder”. 

O filme será exibido mais duas vezes dentro da 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo: neste domingo, às 14h, no Cine Livraria Cultura, e terça, às 15h30, no Espaço Itaú Frei Caneca